For Life Journal

Jornal de Educação Cristã Clássica

A gramática do dinheiro começa em casa


EDUCAÇÃO E FAMÍLIA

Talvez a educação mais desafiadora para as famílias vá muito além daquilo que é básico e tradicional. Não é uma tarefa simples transmitir princípios, crenças e valores de forma constante, até formar indivíduos sólidos, com caráter admirável. Eu não encontrei, para meus filhos, uma escola capaz de irrigar plenamente as sementes que plantei em seus corações dentro de casa. Foi, uma experiência, muitas vezes, perturbadora, com resultados aquém do que eu esperava.

Senti a angústia da insegurança ao ensinar, ainda sem traquejo, sobre as leis da vida e as disciplinas que sustentam o conhecimento humano. Diante disso, precisei desenvolver uma nova forma de educar. Sim, meus filhos frequentam a escola,  passaram por várias, inclusive. Mas foi em casa que, com coragem e intenção, construí meu próprio método. Com o tempo, percebi algo que hoje me parece evidente: nenhuma escola, por melhor que seja, é suficiente para formar um ser humano por inteiro sem o auxílio da família. Ainda assim, uma boa instituição pode tornar essa jornada menos solitária.

Com dois filhos pequenos, eu precisava interferir no ensino que recebiam, não podia esperar por um milagre. Decidi, então, confiar nos frutos advindos da base da minha profissão: a educação financeira. Passei a utilizá-la como instrumento de formação humana, aplicando no dia a dia deles, em diferentes situações e aprendizados, aquilo que ensinava aos meus clientes. Os resultados foram, para a vida deles, inestimáveis. É isso que desejo compartilhar: como o aprendizado financeiro, com todas as suas nuances, pode ajudar a calibrar a bússola interna de uma criança. Lidar com dinheiro vai além de uma simples habilidade, é uma capacidade que pode e deve ser desenvolvida, especialmente na infância. Todo pai deseja que seu filho seja bem-sucedido emocionalmente, financeiramente e espiritualmente. O dinheiro, nesse processo, pode ser um competente professor auxiliar.

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Assim como qualquer área do conhecimento, o dinheiro exige virtudes para ser compreendido e bem utilizado. Existe uma espécie de gramática financeira, com sua própria lógica e dialética. No meu trabalho, vejo com frequência pessoas que, apesar de possuírem recursos, não dominam essa linguagem; e, por isso, não conseguem plantar em solo fértil. A pobreza de vocabulário e discernimento financeiro é semelhante à de alguém que tenta viver em um país cuja língua não compreende: assina contratos sem entender, aceita condições que não sabe nomear, confunde juros simples com compostos, acredita em promessas irreais e utiliza o crédito sem compreender suas consequências. Essa ignorância, no sentido mais literal do termo, é o primeiro nível de vulnerabilidade financeira.

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Com meus filhos, aprendi na prática o que essa gramática exige. Sentia que precisava instruí-los técnica e moralmente sobre esse assunto, tão importante quanto delicado. Criei métodos e mecanismos de aprendizagem prontos para serem implementados desde cedo. A boa notícia é que a partir dos quatro anos já é possível ampliar o repertório da criança com conceitos simples e concretos: comprar, pagar, moeda, cédula, troco, caro, barato, guardar. Também é possível desenvolver noções fundamentais de proporção e de tempo: muito ou pouco, grande ou pequeno, agora ou depois. Experimente começar com as fábulas de Esopo. O conto da cigarra e a formiga é um banquete intelectual. Por que a formiga trabalha? Por que pensa no futuro? Por que ignora conselhos ruins? Por que equilibra o tempo produzindo e, no inverno, frui das reservas do seu esforço? Cada resposta é uma lição de economia, de virtude e de caráter. A literatura pode, desde muito cedo, mobiliar a mente de uma criança com as categorias que o dinheiro, mais tarde, vai exigir dela. Nós, pais, educamos nossos filhos para que vivam com integridade e sirvam à sociedade a partir dos dons que receberam. E, para que essas habilidades floresçam, saber lidar com dinheiro torna o caminho menos complexo.

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Então por que ainda evitamos esse tema? A educação financeira costuma ser introduzida tardiamente, tanto nas famílias quanto nas escolas. Talvez por falta de conhecimento. Talvez por medo. Afinal, tendemos a evitar aquilo que não compreendemos. O resultado é uma formação incompleta, não apenas do ponto de vista financeiro, mas também de caráter. O dinheiro não traz felicidade quando se torna um fim. Mas pode trazer leveza e segurança quando faz parte da jornada. Criar riqueza com ética e decência exige o cultivo de hábitos virtuosos — E sim, é possível construir impérios com os predicados mencionados. São esses hábitos que conduzem aos frutos de uma vida bela, verdadeira e boa. Para isso, é preciso aprender a amar o que é digno de ser amado, trabalhar com excelência, crescer de forma justa e investir com responsabilidade aquilo que foi conquistado com esforço. 

É nesse processo que formamos não apenas indivíduos financeiramente capazes, mas seres humanos que o dinheiro não consegue corromper.

FRANCINE MENDES GREGORI
Economista, pós-graduada em gestão escolar e mestre em psicanálise. Escritora, empreendedora e especialista em educação financeira e emocional. Autora do best-seller Mulheres que Lucram, é também embaixadora do Tesouro Nacional no programa OLITEF.